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De línguas, traduções e galináceos
Considerações sobre alhos e bugalhos
Texto Júlia Abreu de Souza, foto Neyde Lantyer
Voor de Nederlandse versie, klik hier



 

Bernard Shaw teria declarado, em certa ocasião, que nenhum homem realmente capaz em sua própria língua, se interessaria em dominar outra língua. Em 1900, Eça de Queiroz, em Correspondência de Fradique Mendes escreveu que “um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro”. Ao pensamento de Eça e Shaw gostaríamos de acrescentar o do jornalista, tradutor, teatrólogo e humorista brasileiro, Millor Fernandes, que afirma o seguinte:
“Nunca conheci ninguém que falasse bem duas línguas. Cada palavra, nuance, som, que se aprende numa língua, se perde na outra. Falar bem uma língua estrangeira é demonstração de absoluta falta de caráter”.

Que a língua holandesa não é fácil, é chover no molhado. Não se trata de uma língua lógica, fluente, e gostosa de falar. É preciso aprender a pôr a língua no meio da boca e rosnar como um cão raivoso, a fim de pronunciar um “G”, e contrair a boca desconfortavelmente, numa careta, para que saia um ïj”que freqüentemente soa como um ai,ai,ai. E, mesmo, quando ao cabo de alguns anos e muitos erros, tudo isso é realizado, quando se consegue assimilar o misterioso caso das inversões e digerir os milhares de prefixos que alteram o significado dos verbos, etc e tal, há ainda o capítulo da mudança do universo mental necessária a qualquer tentativa de se falar bem uma língua. Concluindo e simplificando: é preciso colocar a língua materna a uma certa distância para se utilizar adequadamente o novo idioma. Para nós, latinos, que apreciamos a retórica e as frases de efeito, a língua holandesa parece estar sempre pronta a dar-nos um banho de água fria tornando nossas formulações e belas metáforas extremamente prosaicas e triviais.

A originalidade do idioma holandês, e até mesmo a sua força, está nas inúmeras expressões que fazem parte da linguagem cotidiana. Certas palavras são mesmo intraduzíveis, bem como o universo que elas contém. A cantada e decantada gezzelligheid, só faz sentido em holandês, nem vale a pena tentar traduzi-la. Tem a ver com hábitos locais, é outro departamento. Já a palavra trut, por exemplo, ainda que também não tenha uma tradução literal, é perfeitamente reconhecível.Então, o que fazemos é aportuguesar a língua, incorporando-a aos neologismos típicos de imigrantes. Fulana é realmente uma truta: qualquer imigrante de língua portuguesa sabe que ninguém está se referindo a peixes, todos entendem e sorriem com cumplicidade.

Já os ditos corriqueiros, tais como “tirar as castanhas do fogo”, “perder o barco”, raramente saem da boca de um imigrante. Para se usar tais expressões requer é preciso ter convivido com elas, são metáforas que pouco têm a ver com a nossa realidade. Assim, as tentativas de usá-las podem causar hilaridade, já que muitas vezes confundimos tudo dizendo: perder o trem, tirar as castanhas do fogo, ela é uma pêra azeda, e por aí ai.
Para nós tanto faz se eles dizem castanhas, pêras ou barcos. Estas expressões nada significam, são meras palavras que se repete para causar impressão. Pelo que me consta, no Brasil, não se assam castanhas e nem se perde o barco. Daí, a precariedade de qualquer associação. Mas pior ainda, é a tentativa de traduzir expressões e gírias da língua materna para a nova língua. Aí, “a porca torce mesmo o rabo”.
Foi o caso de uma brasileira que não escondia os ciúmes possessivos do seu belo holandês. Certa vez, num passeio por Scheveningen, cansada dos olhares e sorrisos voltados para o marido, ela saiu esbravejando pela praia afora: KIP VROUWEN, KIP VROUWEN!

Ora, galinha, em gíria brasileira, se refere à natureza promíscua da ave. Segundo o nosso Aurélio( Van Dale brasileiro), é mulher que varia de parceiro sexual. O fato de ninguém registrar a ofensa não a impediu de repetir, inúmeras vezes, sua história. Ora, para ela, uma galinha era uma galinha, e para evitar possíveis ambiguidades, bastava
acrescentar vrouw à palavra, e pronto: klaar is Kees.

Em estado de intensa emoção, são as estruturas primárias que prevalecem. Daí, ser pura utopia aprender uma língua pelo método “natural’. Primeiro, porque o processo de aprendizagem de línguas a partir de uma certa idade, não é mais natural. A partir dos seis meses, os bebês já reconhecem os sons da língua materna. Depois, o significado emocional da língua materna não é passível de repetição, tem a ver com uma postura essencialmente psicológica. É a isso, creio, a que se referiam Eça, Shaw e Millor, que certamente teriam ficado encantados com a integridade de caráter da tal brasileira.

Em holandês: publicado no Trouw 23-09-2006
Júlia Abreu de Souza

 

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